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Editorial

Rádio: meio quente e frio?
A função hipnótica da rádio, tal como a designa Umberto Eco, desapareceu com a chegada da televisão ao serão das famílias, primeiro das norte-americanas e europeias e depois às de todo o mundo onde a electricidade ou os painéis solares chegaram. Mas a rádio não morreu, adaptou-se, passou a estar presente noutros momentos do dia e passou a dar notícias à televisão, já que os seus ouvintes matinais são também os telespectadores da noite.
O estudo “A Sociedade em Rede 2004” havia já mostrado que os utilizadores da Internet ouviam rádio diariamente, em média, 147.5 minutos enquanto viam 135.3 minutos de televisão. O mesmo estudo demonstrava que, questionados sobre o interesse que lhes despertavam diferentes media, diferentes gerações os hierarquizavam de modo também diferente. Enquanto que os que se encontram acima dos 26 anos e abaixo dos 37 colocavam em primeiro lugar de interesse a Tv, seguindo-se a Internet e em terceiro lugar música gravada e rádio, já para os mais novos (15-25 anos) a rádio surge em quarto lugar (9.3%) atrás da música gravada (15.3%).
Porquê salientar esses dados sobre a rádio? Porque na edição de 2006 do mesmo estudo, apurou-se que, nas camadas mais jovens, a prática de multitasking, enquanto se navega na Internet ou estuda traduz-se numa audição de música gravada mais elevada do que a audição de rádio (embora os valores sejam percentualmente próximos).
Este conjunto de dados leva a uma reflexão sobre o papel da rádio no nosso dia a dia e à velha questão de como será a rádio nos próximos anos e quem serão os seus ouvintes?
A única certeza é que, como sempre, os jovens fazem e farão um uso diferente daquele feito pelos mais velhos. Para além disso só podemos realizar conjecturas e sugerir que a rádio possui uma série de vantagens que, se potenciadas podem continuar a fazer dela líder de atenção num mundo atento à Internet.
A Rádio possui uma aliança natural com a Internet e é, porventura, hoje o media que em Portugal melhor explorou as potencialidades da Internet. Ou melhor, aquele que aliou à experimentação resultados concretos em termos de aumento (ou fixação de audiências) a par de aumento da interactividade com os seus destinatários.
A rádio conseguiu estabelecer quais os pontos de contacto entre as suas características inatas e as características oferecidas pela Internet. A esse fenómeno não são alheios os modelos de negócio radiofónico (assente na publicidade), a facilidade de conversão e distribuição do sinal sonoro em formato digital e acima de tudo a dimensão intimista da rádio, a qual se casa perfeitamente com a construção de redes sociais permitida pela Internet. A rádio e a Internet completam-se assim na procura de uma mais forte proximidade com aqueles que ontem, a ouviam, e hoje a ouvem mas também a vêem e interagem com ela: os ouvintes.
Esse sucesso é particularmente visível nas rádios cuja programação assenta mais no entretenimento e música (dado que as suas congéneres informativas concorrem na Internet com todos os jornais, Tv’s e outros produtores de notícias para o mesmo segmento: os que procuram informar-se).
Se as pessoas que usam a Internet, a parte mais jovem da população, dedicam mais tempo à audição de rádio que ao visionamento televisivo, se em multitasking passam mais tempo a ouvir música que rádio e se acham mais interessante ouvir música que rádio, o que é que isto nos diz sobre as futuras apropriações da rádio pelos seus ouvintes e seus produtores? Arriscaria a dizer que o melhor campo da percepção da relação e gosto dos jovens com a música, não são hoje as vendas de música, ou os lançamentos promocionais das editoras junto das rádios, mas sim a audiência dos concertos e o tipo e a quantidade de música trocada nas redes P2P. Se assim for, o casamento, ou união de facto, da rádio com a Internet produzirá uma rádio mais quente do que a de hoje, onde a interactividade será maior e as músicas passadas continuarão a ter a ver com as opções das pessoas, só que serão opções mediadas pelas escolhas feitas na Internet e pelo tipo e número de pessoas que vai olhar, olhos nos olhos, o seu vocalista ou guitarrista preferido no palco do pavilhão atlântico ou no estádio de Alvalade.
A rede da rádio será assim feita de momentos quentes e frios, para além de McLhuan, a rádio poderá ser um meio quente e frio em simultâneo.
Gustavo Cardoso
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