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Entrevista
Jorge A. S. Machado Professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de S. Paulo (USP) É um dos coordenadores do Grupo de Estudos de Políticas de Acesso à Informação da USP e também do Movimento Acesso Aberto Brasil
Quais são as vantagens em editar publicações no formato Open Access?
Na realidade, não é um formato, senão que uma opção de publicação. Por "acesso aberto", deve-se entender a disposição livre e pública na Internet, de forma a permitir a qualquer usuário a leitura, download, cópia, impressão, distribuição, busca ou o link com o conteúdo completo de artigos, bem como a indexação ou o uso para qualquer outro propósito legal.
Com acesso aberto, pode-se alcançar um público muito maior, dando maior visibilidade ao texto, aumentando, portanto a difusão e o impacto dos resultados das pesquisas, o que é um dos principais motivos que leva o cientista a publicar seus trabalhos. Vale lembrar que um texto na Internet, pode ser indexado pelos engenhos de busca, o que facilita não apenas a localização do documento, como uma pesquisa no interior de mesmo e o estabelecimentos de links com o mesmo.
No entendimento daqueles que apóiam o acesso aberto, não deve haver barreiras financeiras, legais e técnicas outras que não aquelas necessárias para a conexão à Internet. O único constrangimento para a reprodução e distribuição deve ser o controle do autor sobre a integridade de seu trabalho e o direito à devida citação.
Por outro lado, para o pesquisador, o bom andamento de sua pesquisa depende fundamentalmente do acesso a informações e a trabalhos de outros colegas. Quanto maior a possibilidade de acesso e intercâmbio, melhor será a a qualidade de sua pesquisa.
Por fim, deve-se considerar também a não necessidade de acesso físico a obra, os baixos custos editoriais e a possibilidade de difusão e intercâmbio de resultados de pesquisa incomparavelmente maior.
Na sua opinião, o número de jornais e publicações editados em Open Access tem tendência para aumentar? Porquê?
Sim, pois a Internet oferece enormes facilidades tanto de publicação, como de edição e acesso. Ademais, há uma pressão cada vez maior tanto da sociedade civil como da academia para que os resultados das pesquisas - sejam artigos ou livros - financiados com recursos públicos estejam livremente acessíveis.
Já existem vários portais de publicações de acesso aberto, como o www.scielo.org e o www.doaj.org. Vale dizer que as publicações de acesso aberto passam pelos mesmos mecanismos de revisão por pares das de acesso restrito. Um dos atrativos das publicações com acesso livre pela Internet é que as publicações abertas atendem ao interesse público de permitir que o conhecimento seja o mais amplamente difundido e exposto à crítica e à contestação.
Mas o principal fator que tem colaborado com a expansão das publicações de acesso aberto é a mudança de paradigma na sociedade. Num passado recente, as editoras, assim como as gravadoras, tinham a função de fazer o conhecimento chegar ao leitor. Essa mediação era necessária, pois envolvia um complexo sistema de produção, distribuição, logística, planejamento e também custos de estocagem, além das parcelas de participação dos varejistas e distribuidor. Hoje, as tecnologias de informação e comunicação quebraram essa cadeia que havia entre o produtor/autor e o leitor. Isso significa que seus papéis devem ser redefinidos. Obviamente, que este em cenário ainda em transformação e permeado de conflitos.
Quais são os desafios que se colocam aos autores destas publicações?
Um dos maiores desafios é a resistência cultural. As pessoas precisam se acostumar com o novo paradigma. Outro é que as publicações na Internet contribuíram enormemente para aumentar os canais de comunicação acadêmica. E isso afeta as relações de poder, já que que o sistema avaliação acadêmica, que tem consequências na distribuição de recursos para pesquisas, se baseia naquilo que é publicado . Quando há poucos canais de comunicação reconhecidos, quem os controla possui muito poder. E que se vê é que pelos mecanismos tradicionais, esse poder está muito centralizado em poucas mãos. E muitas dessas pessoas não têm interesse em experimentar novas possibilidades. Por isso, ocorre em muitos países que as publicações de acesso aberto acabam não sendo consideradas para avaliação, mesmo tendo visibilidade e impacto muito maior, como mostram as recentes pesquisas.
Cabe lembrar que a literatura de acesso aberto é compatível com direitos autorais, revisão por pareceristas, venda, impressão, preservação, indexação e outros características serviços associados a literatura convencional. A diferença primária é a ausência de barreiras de acesso e a não cobrança de taxas dos leitores.
Defendemos que os resultados de toda pesquisa com recursos públicos seja também público. Isso é um compromisso que nenhum acadêmico deveria se furtar. Por isso, um dos desafios é conscientizar todas as pessoas envolvidas nessa cadeia: pesquisadores, docentes, gestores universitários, agências de fomento, editores universitários e, inclusive, o cidadão que, em última análise, é quem está pagando tudo. A maioria das universidades e centros de pesquisas privados também estão incluídos nessa análise, estes também recebem recursos e outros benefícios do Estado para a realização de suas pesquisas.
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