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Editorial

Lisboa, um nó de comunicação de civilizações e espaço de redes de inovação globais

Durante os primeiros 15 dias de Julho a cidade que alberga a sede do OberCom, Lisboa, estará em eleições intercalares para a Câmara Municipal.

Mais do que uma análise de prospectiva, as ideias que a seguir se debatem devem ser vistas como uma leitura de vias possíveis para o desenvolvimento de Lisboa e de Portugal e do papel da comunicação nesse processo.

Há alguns meses atrás, no espaço de poucos segundos, enquanto realizava zapping por uma série de canais televisivos pude assistir na MTV a uma jovem wannabe no campo da música que guiava um jeep na Califórnia e usava uma camisola da selecção portuguesa, um excerto de uma conferência de imprensa na CNN do actual Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, a uma notícia no Euronews sobre o emissário especial da ONU para luta contra a Tuberculose (e futuramente para o diálogo entre as civilizações), Jorge Sampaio, a uma entrevista na BBC sobre a situação dos refugiados no mundo com o representante para os refugiados da ONU, António Guterres e, por fim, uma outra notícia sobre José Mourinho e o clube de futebol inglês, Chelsea na Sky.

Portugal está, neste início de século, nos olhos do mundo através da comunicação global não só pelos seus protagonistas individuais mas também pelos eventos globais que aqui se organizam, do Europeu de Futebol ao Lisboa-Dakkar, dos eventos como as 7 maravilhas do mundo aos festivais de verão de música que atraem jovens europeus até nós. A Presidência da União e outros eventos colocam, igualmente, Portugal na agenda mediática e com isso catapultam o país para os olhos e atenção globais.

Portugal também é um forte destino de turismo e tal é reforçado pela própria comunicação dos eventos a nível mundial, por exemplo, a questão do terrorismo radical islâmico e a sua cobertura televisiva tem feito colocar Portugal como um destino seguro junto das massas turísticas globais.

Há no entanto, duas considerações prévias a fazer. Tudo o que se passa em Lisboa tem efeitos positivos para o resto do país, embora o inverso não seja obrigatoriamente verdade. Ou melhor os eventos que ocorrem noutros lugares de Portugal só beneficiam Lisboa indirectamente se a sua cobertura comunicacional extravasar as fronteiras nacionais. Em segundo lugar temos de olhar a geografia urbana, política, cultural e económica do espaço onde nos situamos: a península ibérica. Há na península cinco nós, ou redes, urbanas que potenciam poder económico, político e cultural. Elas são respectivamente: Lisboa, Sevilha-Málaga, Bilbao, Madrid e Barcelona. Desses cinco, apenas três podem aspirar a potenciar esses poderes a nível Europeu e global: Lisboa, Madrid e Barcelona.

Como pode então a comunicação potenciar o desenvolvimento de Lisboa, e consequentemente de Portugal? A comunicação faz-se com pessoas qualificadas, o que hoje quer dizer criativas, inovadoras e com capacidade de permanente adaptação e aprendizagem. Essas pessoas procuram espaços onde a qualidade de vida seja elevada em termos de oportunidades de negócio, acessibilidades aeroportuárias e portuárias de hub global, ofertas culturais, acesso às redes de comunicação globais (baixo custo e alta qualidade), custos de habitação não inflacionados, custo de vida abaixo da média europeia, apoio à vida familiar, saúde, educação, mobilidade e segurança. Essas pessoas, que normalmente são técnicos especializados, não geram riqueza apenas através do seu trabalho e das empresas que atraem, mas também de todos os serviços pessoais que são necessários ao seu dia a dia, gerando empregos e mais riqueza. Antes de mais, qualquer espaço urbano tem de fomentar tais condições para conseguir atrair pessoas.

A comunicação enquanto indústria cultural concentra em Lisboa (cidade e distrito) grande parte das empresas e grupos nacionais. A sua internacionalização, seja através de parcerias seja de aquisição de capital por investidores e empresas não portuguesas, será um passo fundamental para a geração de maior riqueza e a extensão do alcance das mesmas a novos clientes e espaços globais. Só assim, os produtos inovadores de origem local, fruto da capacidade criativa de realizadores, argumentistas e actores, podem aspirar a atingir outros mercados, passar de aprendizes de excelência a professores de excelência, atraindo outras empresas e outros criadores.

Quanto à comunicação enquanto marketing, mais do que nunca, ela é feita em torno dos eventos realizados, da sua difusão televisiva global e das opiniões de todos aqueles que neles participam e, posteriormente, difundem opinião entre os seus pares através das suas redes de relacionamento.

Lisboa é um nó global. Sempre o foi ao longo dos séculos, da passagem de fenícios, romanos, árabes, judeus, cruzados do norte europeu, comerciantes do mediterrâneo, comerciantes da flandres, cidadãos globais, índios da América do sul, habitantes das duas costas oceânicas da África, do sub-continente indiano, da Oceânia, aliados, invasores, terroristas, combatentes da liberdade, refugiados de conflitos, emigrantes, todos eles passaram por Lisboa e dela fizeram um nó de redes globais de encontros e desencontros. No entanto, Lisboa mantendo-se como nó, oscilou ao longo dos séculos entre ser um “entreposto de fronteira” e um “centro de inovação”. Durante grande parte do século que passou foi um entreposto de fronteira.

Lisboa não é Berna, Lugano, Genebra ou Zurique. No entanto, no século XXI, as suas vantagens comparativas são as mesmas dessas cidades suíças. O que a Suiça ofereceu ao longo do século XX foi um conjunto de cidades onde, devido ao seu posicionamento geográfico e político (entre impérios do Oeste e do Leste) se encontrava um nó neutro e um ponto de atractividade para organizações globais, para certo tipo de empresas multinacionais e para os depósitos da grande parte da riqueza global. Lisboa, fruto da sua história de criação de redes globais, da sua localização geográfica e da mudança geoestratégica da atenção do Oeste-Leste para o Norte-Sul, encontra-se preparada para ser um ponto estratégico para todas as empresas e organizações com ou sem fins lucrativos que tenham de envolver recursos humanos de diferentes locais do globo.

Os portugueses asseguram hoje no mundo, em múltiplas situações, funções de nó de comunicação de civilizações e promotores de redes de inovação globais. Todos nós conhecemos esses exemplos em empresas estrangeiras e empresas nacionais actuando no exterior e não apenas as personalidades mais mediáticas atrás referidas. Falta agora potenciar essa dimensão individual transferindo-a também para as organizações e empresas e tornar isso perceptível à escala global. Para tal a comunicação é fundamental. Lisboa precisa da comunicação em rede que os portugueses, das mais diversas áreas profissionais, com ligações internacionais entre pares, empresas e organizações, podem oferecer. Mas, também cabe aos que forem eleitos no próximo dia 15 de Julho potenciar a ideia de “Lisboa como nó de comunicação de civilizações e redes de inovação globais”.

Não deverá ser muito difícil fazê-lo e, se o fizermos, nas próximas duas décadas veremos o seu resultado. Até porque, na realidade, tudo o que atrás foi descrito já está a acontecer, só que ainda não juntámos todas as peças do puzzle para ter dos acontecimentos isolados uma leitura global.



Gustavo Cardoso
Director do OberCom


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