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Editorial

O regresso à leitura?
Na passada sexta-feira, dia 27 de Julho, o jornal “meia hora”, de distribuição gratuita, anunciava que publicava nesse dia a sua última edição até ao regresso às aulas, em meados de Setembro.
Parece estranho, mas não é. A verdade é que a cidade (de Lisboa) fica deserta em Agosto. De que serve um jornal de distribuição gratuita quando não há quem distribuir?
A distribuição de jornais gratuitos é um fenómeno da actualidade. A sua circulação tem aumentado de forma espectacular por toda a Europa. Segundo Piet Bakker, investigador holandês que tem aprofundado esta temática, e que já foi nosso convidado nas Conferências OberCom-ISCTE, no ano 2000 o total de circulação de jornais gratuitos na Europa era de 5,5 milhões e duplicou em 4 anos, sendo de 11 milhões em 2004. Duplicou novamente em apenas 2 anos, sendo de 26 milhões em 2006. Os jornais gratuitos atingiram em Julho de 2007 o número “mágico” de 40 milhões em circulação, como divulgamos na nossa última Newletter. Em Julho de 2007, encontram-se em distribuição gratuita na Europa cerca de 129 títulos, mais de 300 edições, com uma circulação de cerca de 27 milhões. Com excepção da Noruega, Luxemburgo e de alguns países do leste europeu, todos os países europeus têm distribuição de jornais gratuitos. Em cerca de 12 países, ainda segundo o investigador, o jornal com maior circulação é precisamente um jornal gratuito.
São números interessantes. E curiosos. Curiosos, porque nos fazem questionar a tese de que cada vez se lê menos. Interessantes, pela surpresa que pode representar a globalização deste conceito comunicativo e modelo de negócio.
A questão que se coloca é se de facto estes títulos representam ou não uma ameaça para os jornais pagos, tão grande ou maior ainda do que a existência de jornais on-line (também gratuitos, mas apenas acessíveis aos utilizadores de internet, cerca de 36% da população no caso português).
Senão vejamos. Segundo dados do questionário “A sociedade em Rede em Portugal”, só 3,4% dos leitores de jornais que lêem os mesmo on-line, não lêem em papel também, só 3,6% dos que lêem gratuitos deixaram de ler pagos e, efectivamente, entre os 8 e os 17 anos de idade há mais 10% de leitores de jornais não pagos do que pagos. Que leitura fazer destes dados? A mais directa é que os leitores regulares de jornais pagos continuam a sê-lo. Não abandonam o jornal pago pelo gratuito, nem pela leitura on-line. Logo, se a circulação aumenta, estamos efectivamente perante novos leitores, não habituais “compradores”, que lêem o jornal gratuito, porque é gratuito, porque lhe chega à mãos sem esforço, porque é rápido de ler, porque terá eventualmente, assuntos que lhe podem interessar. Estamos perante um perfil de leitor diferente e que vale a pena conhecer, pois é a ele que o mercado publicitário crescente se dirige.
Podemos então sugerir que o crescimento dos gratuitos, pode ser também uma oportunidade. Ou seja, uma forma de estimular “o regresso à leitura”. A própria apetência dos mais novos para a utilização da internet, em detrimento de mais horas em frente ao televisor, parece poder gerar hábitos mais próximos da leitura do que o visionamento televisivo e audiovisual. Susceptíveis a uma socialização entre várias realidades mediáticas, onde a leitura tem, apesar de tudo, uma importância grande, realidades essas umas vezes concorrentes mas a maior parte das vezes complementares, os jovens desenvolvem-se no meio de uma multiplicidade de escolhas e opções de comunicação, informação e entretenimento. Essas opções levam ao estímulo de novas e “velhas” competências, adquiridas quase intuitivamente, pelos mais novos. A leitura, em novos ou diferentes suportes, parece ser uma delas. Estamos assim, aparentemente, perante novos leitores, quase inesperados, num contexto em que nos habituamos a “julgar” os mais jovens como não leitores. Serão leitores sim, não necessariamente dos mesmo conteúdos e não necessariamente nos mesmo suportes. Enquanto os jornais tradicionais parecem ter alguns problemas em atrair uma audiência mais jovem, os jornais gratuitos têm uma audiência bastante mais juvenil. A Metro Internacional divulgou recentemente que 70% dos seus leitores se encontra nas faixas etárias com menos de 45 anos.
Com a distribuição muito centrada nos transportes públicos e nas universidades, os jornais gratuitos encontram o seu público directamente, oferecendo uma leitura rápida e acessível, compatível com o seu modo de vida, em meio urbano.
Então, porque não procurar e encontrar o público onde ele está, também em Agosto?
Aqui fica a sugestão: em Agosto, talvez seja boa ideia distribuir os jornais gratuitos na praia, nas esplanadas, à porta dos cinemas, mantendo o hábito, tão saudável, da leitura em tempo de férias.
Rita Espanha OberCom
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