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Antevisão estudo OberCom – Cinema em Ecrãs Privados, Múltiplos e Personalizados: Transformação nos Consumos Cinematográficos

O presente estudo, elaborado por Rita Cheta e Rita Espanha, e baseado nos dados do Inquérito Sociedade em Rede 2006, analisa o uso dos media e as transformações ao nível dos consumos cinematográficos na sociedade portuguesa. O relatório aponta para a coexistência de várias gerações tecnológicas de consumidores de conteúdos cinematográficos, e apresenta uma realidade portuguesa de dupla face, onde, a par dos processos de mudança, coexistem os processos de resistência à mudança.

A análise da expressão destas alterações e resistência à mudança na sociedade portuguesa realizou-se através da caracterização das práticas de consumo cinematográfico dos inquiridos, organizadas em torno dos seguintes eixos de análise definidos no enquadramento teórico: esfera endo-domiciliária versus exo-domiciliária, media tradicionais versus novos media, personalização versus estandardização, multiplicidade versus exclusividade dos ecrãs de cinema.

Globalmente, os resultados apontam para um acentuado e generalizado reforço do processo de privatização do consumo de conteúdos cinematográficos na esfera doméstica, transversal à sociedade portuguesa. Esta tendência comporta, todavia, processos diferenciados. Por um lado, sublinha-se a afirmação de processos de multiplicação e personalização dos consumos cinematográficos, que tendem a caracterizar sobretudo os grupos populacionais mais jovens, com maior grau de literacia tecnológica e digital, e os grupos com maior capital escolar, cultural e económico. Em contraste, afirma-se a continuidade de processos de massificação e estandardização e a utilização de um único media nos consumos cinematográficos, que caracterizam os grupos populacionais mais idosos, mais desprovidos de capital escolar, cultural e económico, e com um baixo nível de literacia tecnológica e digital.

O estudo permitiu identificar 4 Perfis de Consumo e de Consumidor de Conteúdos Cinematográficos, que remetem para diferenciados perfis sóciotecnológicos presentes na sociedade portuguesa actual:

  • Perfil dos não consumidores - “cine-excluídos” - é um perfil residual e em desaparecimento.
  • Perfil de 1ª geração tecnológica - “cine-convencionais” - é um perfil em erosão. Caracteriza-se pelo convencionalismo nos seus modos de consumo cinematográficos, de tipo massificado e em mono-plataforma (TV).
  • Perfil de 2ª geração - ‘’os cine-integrados‘’ – é o perfil maioritário. Caracteriza-se pela forte penetração do consumo de DVD na esfera doméstica e da regularidade intensiva do seu uso. Forte domiciliação dos consumos, contudo combinada com idas mais ou menos ocasionais às salas de cinema. É um perfil ainda herdeiro do consumo massificado e estandardizado de conteúdos culturais em geral, e cinematográficos em particular.
  • Perfil de 3ª geração tecnológica - "cine-inovadores" é um perfil minoritário mas em crescimento e afirmação. Caracteriza-se pela multiplicidade, personalização,interactividade e inovação nos seus modos de consumo de conteúdos cinematográficos. É neste perfil que as características de mobilidade dos equipamentos tecnológicos para visualizar conteúdos de cinema e multimedia se colocam com maior acuidade, através da expressão de desejo futuro na procura activa em adquirir equipamentos e plataformas móveis de alta definição para conteúdos multimedia. Assim como as características da interactividade e personalização dos consumos, sejam esses conteúdos provenientes das cópias ilegais de filmes em DVD ou por via de downloads da Internet. Finalmente, este perfil define-se pelo consumo de conteúdos cinematográficos e audiovisuais em multi-ecrã (cinema, computador e TV/DVD), sendo o seu traço mais distintivo a inovação no uso dos novos media, dos media de 3ª geração tecnológica como o computador, a Internet de banda larga, e certamente onde reside o maior desejo de experimentar as novas plataformas móveis, IPTV e TV digital.

Com base na análise dos dados da realidade portuguesa, este estudo constitui mais um contributo para o complexo exercício e desafio de captar os sentidos e a profundidade das transformações ao nível dos consumos culturais da sociedade portuguesa decorrentes das mudanças no sistema dos media de entretenimento, que caracterizam a transição da sociedade de comunicação de massas para uma sociedade de comunicação em rede, podendo desta forma contribuir para informar a orientação de políticas e investimentos na área do cinema e audiovisual, conhecedoras das práticas, representações e perfis dos consumidores de conteúdos audiovisuais em múltiplas plataformas presentes na sociedade portuguesa contemporânea.

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