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Editorial

Como a música mudou o nosso outro mundo…

Se neste momento está a ler este artigo na Newsletter do OberCom e se tiver até 35 anos é bastante provável que esteja também a ouvir música no seu PC ou Mac. Por estranho que possa à primeira vista parecer, ouvir música em ficheiro Mp3 representa uma das forças que mudou o mundo nos últimos 10 anos.

As 10 forças em acção nos últimos 20 anos sugeridas por Jonathan Taplin, e em grande medida inspiradas no trabalho de Thomas Friedman, são: a queda do muro de Berlim; a difusão pública do browser da Netscape; o software de WorkFlow; o movimento Open Source; O Outsourcing; o Offshoring; A tecnologia de pesquisa online promovida pelo Google e Yahoo; A combinação do Digital, Móvel, Pessoal e Virtual; O modelo de comércio físico do Walmart; e o modelo de comércio online ou e-commerce.

Talvez não nos tenhamos apercebido como a música mudou e como essa mudança é responsável por estar a mudar o nosso mundo. A música é tradicionalmente companhia de viagem, de trabalho e de lazer, mas para além de estados de espírito e de intensidade de prazer poderá ela mudar algo mais? Segundo Jonathan Taplin, Professor da Annenberg School of Communication em Los Angeles, sim, a música mudou o nosso mundo, porque ela é responsável pela “Long Tail”, ou cauda comprida, do comércio. E se o comércio muda, também a nossa vida se altera. A música é apenas o exemplo máximo da mudança em curso no comércio e, tal não tem a ver com a dimensão digital ou física do produto. Cada vez mais se vende menos coisas de mais coisas. Ou seja, cerca de um terço do total de vendas das lojas online de música refere-se a músicas que não se encontram disponíveis em nenhuma loja de venda ao público, simplesmente porque este novo modelo de negócio permite ter disponível, a baixos custos, catálogos muito maiores. Mas quem diz música, diz também livros. A Amazon.com possui um inventário de cerca de 3 milhões de livros para venda. Desses títulos, próximo de 60% não se encontra à venda em nenhuma livraria tradicional ou de centro comercial.

O conceito de "Long Tail" é proposto por Chris Anderson e descreve a venda de bens em mercados de nicho, ou seja, ultra segmentados. Os produtos de nicho têm períodos de venda de maior duração e, no longo prazo, vendem mais que os produtos mais populares.

A argumentação de Anderson é a de que o mercado tem funcionado como um concurso de popularidade, tradicionalmente ganho por mega-hits, bestsellers e celebridades, mas os microprodutos estão a mudar esse modelo. Os inventários virtuais e as mercadorias digitais colocam ao alcance do vendedor o maior segmento de consumidores e também a armazenagem mais barata do mercado. A sugestão de Anderson é a de que, do mesmo modo que o problema da capacidade de oferta foi já resolvido nos sectores do entretenimento e informação, também será de esperar que nos bens de consumo de massa o mesmo suceda, pois a lógica do “Long Tail” pode oferecer ao consumidor muitos mais produtos e também a mais fácil satisfação dos seus desejos.

A base para a venda deixou de ser o posicionamento no corredor do centro comercial ou dada zona da cidade, para assentar no “passa palavra” das críticas positivas online ou do “review” do produto no sítio online. Para navegar na “Long Tail” o vendedor tem de oferecer aos seus consumidores flexibilidade nos preços, serviços e entrega.

O poder no comércio passou a ser o poder de controlar os nichos de mercado. E tudo começou com a música, com a troca de ficheiros Mp3 e com a abertura de lojas online como a iTunes.

A questão que fica por perceber é se a “Long Tail” se encontra também em Portugal ou se os portugueses apenas usufruem da “Long Tail” da oferta das lojas globais?

A pergunta é, com certeza, pertinente, a resposta poderá ser mais ou menos reconfortante para o nosso comércio. Dependerá de saber se Portugal, e os comerciantes portugueses, têm ou não lojas âncora online que fidelizem consumidores e que assim possam criar alavancagem para um comércio electrónico criador de riqueza nacional.

Gustavo Cardoso


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