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Editorial

WIKIS, BLOGUES E YOUTUBE. E AGORA?

Durante os últimos meses têm-se multiplicado, internacional e nacionalmente, os artigos de jornais, peças de televisão e, inclusive, muitas e longas linhas sobre o que é a Web 2.0, ou se preferirmos a Web social.

Não há dúvida que algo mudou entre a Web de hoje e a Web que Tim Berners Lee e seus alunos criaram nos idos anos 90. No entanto, embora a Web o não tenha sido até agora, a Internet sempre foi social. Sempre se comunicou mais do que se publicou informação e entretenimento. Se o email foi a ferramenta de eleição dos maiores de 25 anos, o chat com o MSN, Yahoo e Google Talk (e antes deles o IRC, Newsgroups e mailing lists) eram as ferramentas mais usadas e mais vezes utilizadas por quem se ligava e liga à Internet.

O que mudou não foi a característica social da Internet foi o facto de, essa mesma característica, ter chegado à Web através de programas como, entre outros, MySpace, Facebook, hi5, Friendster, ou mesmo, Second Life.

Mas, para além dessas considerações, há também que não confundir a “nuvem com Juno” ou “a árvore com a floresta”.

As questões que a divulgação da Web social coloca prendem-se muito mais com a informação do que com os denominados perigos de falar com “estranhos” (os “estranhos” são os mesmos que sempre andaram fora do mundo virtual, agora apenas se moveram para lá).

O que a Web 2.0 nos traz é a mudança de paradigma de relação com a informação e isso encerra problemas maiores, porque não nos atinge apenas individualmente, atinge-nos individual e colectivamente em todas as dimensões da nossa vida.

É óbvio que as novas dimensões da acessibilidade da informação, em quantidade e em mobilidade são uma mudança fundamental para as nossas sociedades e, trata-se, de uma mudança positiva. Essa mudança quer dizer, em teoria, mais liberdade de pensamento, maior reflexividade e maior democraticidade entre os sujeitos comunicantes, isto é: nós. No entanto, importa questionar se essa mudança não está também a mudar as regras do jogo sem que nós nos apercebamos e, como tal, podendo colocar-nos fora dele. Não por nosso erro, mas por desconhecimento de que as regras mudaram algures ao longo de um jogo em curso.

Na Era da Comunicação de Massa, a “verdade” (algo sempre subjectivo, como convêm relembrar) costumava estar associada àquilo que era dito pelos jornalistas (também aos professores e autores publicados e encadernados em papel, mas o que esses nos contavam tinha normalmente menos impacto na nossa vida diária).

O que diferencia, em última analise, o jornalista do contador de histórias (algo que todos somos, melhor ou pior) é a dimensão ética. Não é a sua capacidade de escolha e selecção, pois essas são, tão só, ferramentas ao serviço da ética.

Algures nos primeiros anos do século XXI produziu-se um fenómeno fundamental: o surgimento da Wikipedia. Porquê a Wikipedia?

Porque a Wikipedia mudou a nossa relação com as fontes de informação avalizada e de carácter não actual, ou seja, as que não eram notícias. A lógica deixou de ser “o que está escrito lá é o que vale” (o modelo da enciclopédia britânica e outras portuguesas) para passar a ser “o que a maior parte das pessoas não alterar, é o que vale”. Até aqui nada de preocupante, a validação por mais pessoas normalmente quer dizer menos gralhas. Mas o problema que a Wikipedia, os Wikis e, seus parentes, os blogues nos trouxeram foi o facto de que, embora convivamos com diferentes categorias de informação, na generalidade as pessoas, tal como confiam na informação televisiva, também confiam na informação que encontram na Web. Daí, que em resposta a questionários o afirmem e que, quando questionados por professores e bibliotecários, cidadãos jovens digam: “como sei que a resposta é certa? Vi na Wikipedia”.

Conclusão: o que temos que passar a ensinar na escola, e fora dela aos mais velhos, é que os textos escritos e publicados podem ou não valer, podem ou não dar-nos certezas, mas que devemos encarar a informação, toda, sempre como duvidosa até prova em contrário. O que falta responder é: quem prova o contrário?

Mas passemos à segunda questão que o surgir da Web social, ou 2.0, coloca: a imagem em movimento, o filme, e a imagem estática (a fotografia).

Costuma-se dizer que uma imagem vale mil palavras. Será verdade? Talvez sim num passado próximo, hoje não. É certo que a montagem fotográfica é tão antiga quanto a fotografia. (por exemplo, fotos da I Guerra Mundial que nos habituamos a ver retratar as batalhas, são na sua maioria montagens). No entanto, com o surgir das tecnologias digitais quase todos podem manipular fotos e filmes. A questão não é se é possível, mas sim com que qualidade se faz e quantos têm capacidade para entrever o que é real e o que é “trabalhado”.

O que a difusão das técnicas de manipulação de imagem provoca é que devemos habituar-nos a pensar que não podemos acreditar no que vemos, pondo em causa a velha máxima do “ver para crer”.

Uma terceira constatação, neste texto. A revista italiana L’Expresso intitulava um artigo sobre os jovens contemporâneos chamando-lhes “Geração Olha para Mim”, a propósito da exposição pública de imagens pessoais, filmes e textos em sites como o YouTube, MySpace, Facebook, etc.

O que nos dizem todas estas coisas? Em primeiro lugar que temos de olhar de forma diferente para a credibilidade dos textos e das imagens. Em segundo lugar que, muito provavelmente, continuaremos a assinar textos e a colocar imagens na Internet, tal como nas paredes das cidades se faz com grafitti ou, como nas gerações anteriores se fazia, nos troncos das árvores.

Mas há outra coisa que tudo isto nos diz. Arriscaria dizer que o que nos diz é que o jornalista, lentamente, está de novo num processo de valorização profissional enquanto alguém que, pela sua ética, pode ser considerado de confiança, porque o que ele escrever, disser ou filmar terá um valor diferente de muito do que é actualmente publicado. E se não podermos contar com essa ética profissional os nossos problemas serão muito maiores.

Mas essa nova valorização (ou regresso da percepção) do papel do jornalista implica também que ele volte a ser diferente do utilizador da Internet. Ou seja, ele terá de ver com os seus olhos para crer e deixar de ver pelos olhos de outros. Isto é, terá de abandonar a secretária e ser essencialmente um repórter de terreno.

No geral, o que nos sugere esta mudança é positivo para a comunicação e para as sociedades. É claro que, como em todas as mudanças, há riscos mas também muitas oportunidades. O que importa é estarmos cientes que ambos estão lá.

E acima de tudo passar da intuição à consciência do facto. Porque talvez a maior parte de nós (embora intuindo) não verbalizou essa mudança de paradigmas comunicacionais. E como sugeria Roger Silverstone: se não se comunicou publicamente nos media, então não existe.

Gustavo Cardoso


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