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Editorial

Os supostos efeitos dos Media e para além deles

O subtítulo deste editorial de início de Setembro de 2008 poderia ser, como se compreenderá mais adiante, algo como: “Role Models, Pares e a Representação da Criminalidade Violenta nos Media”.

David Gauntlett publicou em 2005 uma versão revista do seu artigo “Ten Things wrong with the media ‘effects’ model” e que vale a pena revisitar após um Verão em que não foram as séries de ficção sobre violência que estiveram nos TOP’s das audiências dos media, mas sim as notícias sobre violência.

Gauntlett afirma que, apesar de mais de sessenta anos e dos milhares de estudos dedicados aos efeitos dos media, as relações entre o consumo de mass media pelas populações e o seu comportamento subsequente continuam a ser extremamente ténues, ou quase inexistentes, quanto à demonstração científica dessa existência. E, consequentemente, questiona porque não existem então respostas claras sobre os efeitos dos media?

Gauntlett propõe dez teses para explicar a inexistência de relação entre os media e os comportamentos das pessoas, respectivamente: O modelo de ‘efeitos dos Media” lida com problemas sociais ao contrário; O modelo de ‘efeitos dos Media” trata as crianças como inadequadas socialmente; As assumpções dentro do modelo de ‘efeitos dos Media” são caracterizadas por esconderem deficientemente uma ideologia conservadora; O modelo de ‘efeitos dos Media” define os seus objectos de estudo inadequadamente; O modelo de ‘efeitos dos Media” é muitas vezes baseado em elementos artificiais e assumpções; O modelo de ‘efeitos dos Media” é muitas vezes baseado em estudos que utilizam metodologias mal direccionadas; O modelo de ‘efeitos dos Media” é selectivo nas suas criticas às formas de representação da violência nos media; O modelo de ‘efeitos dos Media” assume a sua superioridade face às massas; O modelo de ‘efeitos dos Media” não faz qualquer tentativa de compreensão dos sentido da representação nos media; O modelo de ‘efeitos dos Media”não se encontra baseado em teoria.

Para o leitor com formação académica, ou simples interesse nas questões da comunicação, algumas das teses de Gauntlett serão imediatamente perceptíveis – mas certamente não serão isentas de polémica. No entanto, para a análise pretendida neste editorial irei centrar-me na análise deste autor sobre duas das suas teses.

A primeira centra-se na forma como a denominada análise de “efeitos dos Media” lida com problemas sociais ao contrário. Segundo Gauntlett, para explicar os problemas da violência na sociedade, os investigadores deveriam começar pelo problema social e explicá-lo com referência aos que o originam: o seu background, estilos de vida, etc. A abordagem dos 'efeitos dos media', segundo o autor, lida com o problema ao contrário, partindo dos media e tentando estabelecer relações com os actores sociais, ou seja, todos os envolvidos nesse processo.

A segunda tese diz respeito à selectividade das criticas às formas de representação da violência nos media. Gauntlett salienta o facto de a atenção dos estudos de “efeitos dos Media”, que lidam com questões de violência, se centrar quase sempre nas produções de ficção deixando de fora as notícias e a violência por essas mostrada. A argumentação do autor não é a de que as representações de violência nas notícias devessem ter o mesmo tratamento que a ficção no quadro dos “efeitos dos Media”, mas sim para a inconsistência do modelo. Pois, se dos actos anti-sociais mostrados em séries e filmes se espera um efeito no comportamento dos telespectadores, não existiria nenhuma razão para deixar de fora a violência nas notícias. Tanto mais que nas notícias, ao contrário das series e filmes, na maioria das vezes o perpetrador do acto não é punido.

Embora concordando com Gauntlett, há uma pergunta que deve ser trazida à luz, já não da teoria dos efeitos, mas sim de uma abordagem da apropriação simbólica no contexto da transformação da reserva nas nossas sociedades e da cultura da celebridade efémera.

Ou seja, apesar do surgir da Internet, a única tecnologia que se encontra em 99% dos lares é ainda a televisão. Também importa lembrar que, fruto de uma transformação social do conceito de reserva, que anda também a par da sua apropriação pelos próprios media, os conteúdos e os softwares que promovem a visibilidade pública dos indivíduos perante os seus pares (seja de idade, profissão ou hobbies) se multiplicaram.

Só para nos situar perante essa mudança social do conceito de reserva, basta pensar na multiplicação de talkshows, da visibilidade dos programas de realidade e do multiplicar de softwares da Web 2.0. A transformação do conceito de reserva não é algo de negativo nem de positivo, mas sim uma constatação que tem de ser tomada em consideração na análise dos media e da sociedade.

Assim sendo, a pergunta que deve ser feita no quadro da visibilidade dada à criminalidade violenta na televisão em Agosto, não é a de saber se a notícia provoca comportamentos violentos, mas se o facto de a mesma ser valorizada muitas vezes não provoca o efeito: “Fui eu, eu também sou capaz!” e a satisfação de se ver a si próprio como notícia no corolário da celebrização pessoal nos media - com a óbvia relativização da reserva, pois o criminoso não quer que todos saibam que foi ele, quando muito apenas os seus pares.

A criminalidade não é criada pelos media, mas sim pelas condições sociais onde se desenvolve. Mas temos de colocar a questão atrás enunciada, porque para ela não temos resposta, temos apenas hipóteses: será que quando insistimos muito em noticiar uma dada temática negativa, esse facto pode ter o mesmo efeito que a visibilidade do fogo perante o pirómano, ou seja, a satisfação e o envolver um dado público no seu acto? Os media não são responsáveis, mas sendo parte da sociedade têm de se interrogar sobre se esse limite virtual de insistência perante um dado fenómeno existe ou não. E se querem ou não viver com essa interrogação.

Não tendo resposta para a pergunta colocada, resta a cada um lidar com a interrogação à sua maneira. Sabendo que os efeitos dos media não são até agora inequivocamente demonstráveis mas que, se os media nos dão a categorização que nos ajuda a perceber a realidade, também podem ser utilizados por nós próprios para a satisfação de um desejo de notoriedade, mesmo que ela se resuma ao grupo mais pequeno possível de idealizar: nós e a nossa mente.

Gustavo Cardoso


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