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Editorial

Um Crowdsourcing à análise dos media
As redes sempre existiram (basta lembrar as redes da rota da seda ou da cultura europeia medieval baseada nos mosteiros), no entanto as redes actuais aliam às suas características genéticas de flexibilidade a rapidez e a eficiência, agora possíveis pela difusão das tecnologias de informação digitais pela população e pelas organizações em geral.
Mas se as redes são já um facto assumido no nosso dia a dia, novas utilizações das mesmas vão sempre surgindo, esse é o caso do “Crowdsourcing”. Neste momento o leitor pode interrogar-se sobre o que essa palavra, que junta “multidão” e “fonte” numa só, quer efectivamente dizer. A resposta mais simples é dada pelo seu criador Jeff Howe, jornalista da revista Wired e escritor: Crowdsourcing é o acto de pegar numa tarefa tradicionalmente desempenhada por um dado agente (normalmente um empregado) e realizar o seu outsourcing a um grupo alargado e indefinido de pessoas, através de uma Open Call, isto é, um convite aberto a todos.
Porquê juntar “Crowdsourcing” à análise dos media? Para responder a essa pergunta temos de recuar algum tempo atrás. A análise dos media, no quadro da investigação cientifica, conheceu ao longo da segunda década do século XX um desenvolvimento acelerado e, em grande medida, inovador. Tal, deveu-se por um lado ao desenvolvimento dos media, enquanto meios tecnológicos, por outro à sua generalização, primeiro nas sociedades desenvolvidas e posteriormente alargando-se a todo o mundo.
A generalização do uso dos media implicou também a expansão de interesse no quadro das universidades e teve como consequência a criação de duas grandes famílias analíticas: as radicadas nas humanidades e as constituídas em torno das ciências sociais.
Regressando à actualidade, é hoje reconhecido no quadro europeu, quer na ESF (European Science Foundation) quer no ERC (European Research Council), que existem fossos alargados entre as humanidades e ciências sociais, isto é, as duas grandes famílias da análise científica dos media e, consequentemente, a necessidade de construir pontes entre as mesmas.
O porquê desse afastamento, construído ao longo do século XX, radica em múltiplas razões. No entanto, há uma que creio central e que se baseia no discurso, comummente partilhado entre pares, da oposição entre métodos qualitativos e quantitativos. Embora seja uma clara tentativa de simplificação, esse raciocínio coloca-nos perante a ideia de que as humanidades analisam os media com base em metodologias qualitativas e as ciências sociais em metodologias quantitativas (algo que a realidade se encarrega de refutar, mas que serve para caricaturar o “outro” ou seja, quem habita no departamento ao lado).
Por vezes, a separação e a concorrência entre famílias científicas pode ser justificável, em particular quando olhamos para os outputs finais, ou seja, diferentes análises promovem inovação e como tal o processo de separação quase que se auto-justifica em função dos resultados atingidos.
No caso da análise dos media, pode dizer-se que, se na diferenciação temática das áreas estudadas se encontram efeitos positivos, já o mesmo dificilmente pode ser dito da evolução metodológica, pois essa abordagem de separação com base nos usos metodológicos, entre humanidades e ciências sociais, teve uma consequência não esperada: a falta de inovação nas próprias abordagens metodológicas.
A inovação metodológica no campo dos media nas humanidades e ciências sociais tem, ao longo das duas últimas décadas, baseado-se numa inovação meramente incremental, em grande medida induzida pelo surgimento de uma nova tecnologia, a Internet.
Aplicámos metodologias quantitativas e qualitativas à Internet e ao fazê-lo adaptámos, entre outras, análises de conteúdo a paginas Web ou os questionários ao online. Ou seja, inovámos incrementalmente, mudando algumas das características dos instrumentos de análise, já nossos conhecidos, mas sem, radicalmente, mudar a sua forma e fim.
No entanto, encontram-se alguns exemplos de inovação publicados e largamente experimentadas no campo dos media sem, no entanto, terem a visibilidade necessária no quadro do ensino e da investigação. Por outro lado, a análise da prática de investigação sobre os media, quer na Europa quer nos EUA ou na América Latina, demonstra que a separação “qualitativo vs quantitativo” ,se se mantém entre as gerações de investigadores formados até ao anos setenta, encontra-se porventura superada entre muitos daqueles que incorporam as gerações de novos investigadores das humanidades e ciências sociais. Da fusão de usos metodológicos qualitativos e quantitativos está, assim, a desenvolver-se o embrião de uma nova realidade na investigação de media.
Dois exemplos, são a utilização no Artlab da Universidade de Westminster das criações em LEGO para discussão de representações no campo dos media ou do programa InterMedia da Universidade de Oslo que explora o uso da auto-representação em formato de histórias digitais.
A proposta deste editorial é, assim, a de sugerir a todos os que pretendam, partilhar através do OberCom (usando o email obercom@obercom.pt) experiências inovadoras no campo da investigação e cujos links possamos divulgar em próximas edições desta Newsletter.
Creio que quase todos os leitores já se terão apercebido de que estamos a tentar promover “Crowdsourcing às metodologias de media”, mas vale a pena convidar-vos à leitura da Wired ou do blog de Jeff Home onde o conceito de crowdsourcing é explorado em http://crowdsourcing.typepad.com/.
Gustavo Cardoso
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